Chamada para Dossiê

A Revista Série-Estudos em parceria com a Associação Brasileira de Currículo (ABdC), convida para a submissão de artigos para o Dossiê “Políticas curriculares em disputa: Discurso, Hegemonia e Resistência na América Latina” a a ser publicado no v. 31, n. 73, de 2026. O Dossiê é organizado pela professoras Dras.  Ana Cláudia da Silva Rodrigues – (UFPB), Carmen Gloria Burgos Videla (University of Atacama – Chile) e Professor Dr. Edison Cuervo Montoya (Universidad del Valle – Colombia). O prazo final de submissão é 15 de agosto de 2026.

Salientamos que todos/as os/as autores/as devem estar com a anuidade da ABdC regularizada no momento da submissão dos textos.

O debate curricular na América Latina, nas primeiras décadas do século XXI, é marcado pela instabilidade os sentidos e pela disputa incessante por significação. Nesse cenário, o currículo deixa de ser entendido omo estrutura fixa ou como instrumento neutro de transmissão de conhecimentos e passa a ser concebido como prática discursiva, atravessada por relações de poder, processos de subjetivação e regimes de verdade que nunca se estabilizam de forma definitiva.

Nesse sentido, é importante destacar que tais dinâmicas discursivas não operam de forma abstrata, mas se materializam em mediações institucionais concretas, tais como políticas curriculares nacionais, diretrizes oficiais, sistemas de avaliação e dispositivos de regulação educacional. Essas instâncias não apenas expressam disputas de sentido, mas também contribuem para sua estabilização provisória, configurando o currículo como um espaço onde discurso e materialidade se articulam de maneira indissociável.

As chamadas “questões curriculares atuais” — como diversidade, gênero, raça, inclusão e sustentabilidade — não constituem agendas universais ou consensuais, mas emergem como articulações políticas contingentes, produzidas em contextos históricos específicos. Essas demandas tensionam o currículo ao deslocarem a centralidade de narrativas hegemônicas e ao evidenciarem que todo conhecimento é situado, parcial e implicado em relações de poder. Sob uma lente pós-fundacional, não há fundamento último que legitime tais escolhas; o que existe são disputas por hegemonia, nas quais determinados significados tornam-se provisoriamente dominantes. Nesse sentido, sugere-se que possibilidades aparentemente impossíveis sejam esperadas no desenvolvimento curricular, bem como os eventos que levam à decisão de cumprir o desempenho curricular.

Adicionalmente, esta proposta busca incentivar a submissão de estudos com ancoragens empíricas explícitas, que analisem contextos concretos de produção curricular na América Latina. São particularmente relevantes investigações que abordem reformas educacionais recentes, disputas em torno de políticas curriculares, controvérsias públicas sobre conteúdos escolares, bem como práticas institucionais e pedagógicas que evidenciem tensões entre regulação, resistência e produção de sentidos.

É precisamente nesse terreno instável que o ultraconservadorismo na América Latina deve ser analisado. No contexto latino-americano, tais dinâmicas assumem contornos específicos, marcados por heranças coloniais persistentes, profundas desigualdades sociais e disputas entre projetos políticos antagônicos. Nesse cenário, torna-se fundamental considerar contribuições de perspectivas decoloniais e críticas, que permitem problematizar os modos como o currículo participa da produção e da contestação de hierarquias epistêmicas, culturais e sociais na região. Longe de representar um simples retorno ao passado, ele opera como uma estratégia discursiva que busca fixar sentidos, produzir fechamento e restaurar uma suposta ordem ameaçada. Ao evocar ideias como “neutralidade”, “tradição” e “valores universais”, esses movimentos tentam ocultar a contingência de suas próprias posições, apresentando-as como naturais ou inevitáveis. Trata-se, portanto, de uma tentativa de interromper o jogo político da significação, negando a pluralidade e deslegitimando outras formas de existência e conhecimento.

Diante do exposto, nos propomos organizar resultados de pesquisas que respondam a demandas postas para o currículo nas primeiras décadas do século XXI. Para isso, consideramos que a política editorial da Revista Currículo Sem Fronteiras, tem primado pelo avanço do conhecimento na área da educação, especificamente do currículo, e publicando resultados de pesquisas comprometidas com a análise de contextos curriculares — com foco nas disputas e produções de sentido —, e, a elegemos como destinatária da proposta. Espera-se, assim, reunir contribuições que articulem dimensões teóricas e empíricas, capazes de evidenciar tanto os processos de hegemonização quanto as formas de resistência que atravessam as políticas curriculares contemporâneas na América Latina.